Cercada por tabus, a perda involuntária de urina e fezes interfere na rotina, na vida íntima e no bem-estar, mas tem tratamento eficaz.
A fisioterapeuta pélvica Marieli Graciano, da clínica Inticlin, destaca que a incontinência urinária e fecal é comum, tem tratamento e não deve ser tratada com silêncio ou vergonha. A perda involuntária de urina, fezes ou até mesmo de gases ainda é um tema cercado de tabus, vergonha e desinformação. No entanto, trata-se de uma condição mais comum do que se imagina e que pode afetar pessoas de diferentes idades, gêneros e fases da vida. Para esclarecer o assunto, conversamos com a fisioterapeuta pélvica Marieli Graciano, da clínica Inticlin, que explica as causas, os impactos e os caminhos para o tratamento da incontinência.
O que é incontinência urinária e fecal?
A própria palavra “incontinência” já indica a dificuldade de contenção. A incontinência urinária ocorre quando há escape involuntário de urina, enquanto a incontinência fecal está relacionada à perda do controle das fezes. Há ainda a incontinência de gases, que muitas vezes surge como um sinal inicial do enfraquecimento da musculatura responsável pela continência.
Segundo a especialista, nem sempre esses tipos de incontinência aparecem juntos. “Há pessoas que perdem urina, mas têm o intestino preso. Outras apresentam escape de fezes sem perda urinária. Em alguns casos, os dois acontecem simultaneamente”, explica Marieli.
Quem é mais afetado?
Embora possa atingir homens, mulheres e crianças, a incontinência é mais frequente entre as mulheres. Entre os fatores de risco estão:
• Gravidez e pós-parto (parto normal ou cesárea);
• Cirurgias pélvicas; • Envelhecimento e menopausa;
• Distúrbios hormonais e metabólicos;
• Diabetes;
• Emagrecimento rápido ou sem acompanhamento adequado.
A fisioterapeuta destaca que processos de perda de peso, especialmente após cirurgias bariátricas ou dietas restritivas, podem levar à perda de massa muscular — incluindo os músculos do assoalho pélvico, responsáveis por sustentar a bexiga, o intestino e outros órgãos.
Vergonha, tabu e impacto na vida íntima
A vergonha é um dos maiores obstáculos para o diagnóstico e tratamento. Muitas mulheres associam a perda urinária à sensação de envelhecimento, frouxidão ou falta de higiene, o que pode levar à restrição social e emocional. “Algumas deixam de usar certas roupas, evitam sair de casa ou até se afastam do parceiro por medo de vazamentos durante a relação sexual”, relata Marieli.
Durante o ato sexual, é possível que a mulher sinta vontade súbita de urinar ou até apresente escapes. Nem sempre isso significa que há urina na bexiga, mas pode estar relacionado a uma bexiga hiperativa ou à falta de coordenação da musculatura pélvica.
Incontinência também atinge crianças
Embora menos comentada, a incontinência urinária infantil existe e precisa de atenção. Crianças acima dos cinco anos que continuam apresentando escapes devem ser avaliadas. “Mesmo sendo músculos jovens, eles podem estar debilitados ou mal coordenados, e isso tem tratamento”, afirma a fisioterapeuta.
Quando procurar ajuda?
O alerta surge quando os escapes se tornam frequentes e começam a interferir na rotina, no sono, nas viagens, no trabalho ou na vida sexual. A necessidade constante de ir ao banheiro, o medo de vazamentos e a dependência de absorventes e fraldas são sinais claros de que é hora de buscar ajuda profissional.
O primeiro contato pode ser com ginecologista, urologista ou clínico, mas a fisioterapia pélvica tem papel fundamental no tratamento, pois avalia o corpo de forma integrada.
Avaliação e exames
Para identificar a causa da incontinência, podem ser solicitados exames como:
• Ultrassom das vias urinárias;
• Estudos dinâmicos da bexiga;
• Avaliação do resíduo urinário pós-micção;
• Em alguns casos, ressonância magnética.
Esses exames ajudam a entender se há falha no esvaziamento da bexiga, excesso de pressão ou alteração estrutural.
Emoções, estresse e o assoalho pélvico
O estado emocional também influencia diretamente o funcionamento da bexiga e do intestino. Situações de estresse, ansiedade, medo ou até risadas intensas podem desencadear escapes. “O corpo reage às emoções. Em fases difíceis, é comum sentir que tudo fica mais ‘frouxo’”, explica Marieli.
O papel da fisioterapia pélvica
O tratamento envolve muito mais do que apenas “contrair e relaxar”. A fisioterapia pélvica trabalha força, coordenação, consciência corporal, respiração, postura e musculatura abdominal. Em alguns casos, o problema não é fraqueza, mas excesso de tensão, que também pode causar escapes.
Os exercícios são personalizados e podem ser realizados tanto na clínica quanto em casa, sempre com orientação profissional. “Cada paciente é único. Às vezes, melhorar o funcionamento do intestino resolve a incontinência urinária”, destaca a fisioterapeuta.
Resultados e tempo de tratamento
Quando o paciente segue corretamente as orientações, os resultados costumam aparecer rapidamente. Em média, cerca de 10 sessões já promovem uma melhora de 60% a 70%. No entanto, fatores emocionais, hormonais, oncológicos ou situações de luto podem interferir no tempo de resposta, exigindo um cuidado multidisciplinar.
É importante destacar.
O uso constante de absorventes, fraldas ou panos pode aumentar o risco de infecções, fungos e irritações, além de impactar financeiramente e emocionalmente. “Se já está escapando e incomodando, procure ajuda o quanto antes. A incontinência não costuma melhorar sozinha e tende a piorar com o tempo”, alerta Marieli Graciano.
Falar sobre o tema é o primeiro passo para quebrar o tabu, recuperar a qualidade de vida e entender que perder urina ou fezes não é normal — e, principalmente, tem tratamento.
Quer saber mais? Clique no link abaixo e assista à entrevista na íntegra realizada com a fisioterapeuta pélvica Marieli Graciano.